Os cogumelos são conhecidos por nossa espécie desde registros arqueológicos e estão presentes no nosso cotidiano de diversas formas, seja como forma de alimento, bio-estabilizadores de solo e medicinas alternativas, até soluções mais modernas e tecnológicas como embalagens biodegradáveis de uso único, substitutos de couro sem impactos na vida animal e agentes decompositores para acidentes com derramamento de petróleo no oceano.
Há registros arqueológicos de mais de 7.000 anos descrevendo os cogumelos como sendo uma das fontes de enteógenos (substâncias catalizadoras de experiências com o divino/astral) mais antigas da história da humanidade, documentados em pinturas pré-históricas descobertas em uma zona montanhosa do Deserto do Saara, na Argélia.
Para povos de tempos pré-colombianos (Astecas), os cogumelos foram fonte enteogênica em rituais onde se buscava experiências espirituais e como medicina para tratar mais de 40 males e doenças.
Em 1598 durante a conquista espanhola do império Asteca, esses cogumelos foram apresentados como teonanácatl, o que significa “carne dos deuses” e utilizados em cerimônias importantes como a coroação de seus governantes. Os espanhóis ficaram espantados ao ver como os nativos adoravam seus deuses com a ajuda desses cogumelos. Em 1690 a inquisição declarou que o consumo de plantas embriagantes era uma heresia, e a Instituição Católica ao seu tempo passou a perseguir seu consumo e prática sem descanso.
Dessa forma, os cogumelos sagrados cairiam em desconhecimento se não fossem pelos xamãs nativos e sua transferência de conhecimento oral de geração em geração.
Mais de 400 anos depois, um homem chamado Gordon Wasson, banqueiro e biólogo estadunidense e sua esposa Valentina Pavlovna, pediatra e imigrante russa, haviam iniciado uma pesquisa no reino fungi e decidiram viajar para Huahutla de Jiménez, no estado Mexicano de Oaxaca. Lá tiveram a oportunidade de participar de uma cerimônia de cogumelos, guiados pela xamã mazateca Maria Sabina.

Fonte da imagem: Wikipédia
Ao voltar de viagem, enviaram amostras a diversos laboratórios nos Estados Unidos, que não conseguiram descobrir qual era seu princípio ativo. Assim, decidiram enviar amostras à Albert Hofmann, o químico suíço que sintetizou e descobriu as propriedades do LSD.
Depois de várias tentativas, em 1958, Hofmann conseguiu várias gramas de psilocibina, podendo determinar sua estrutura química e a forma de sintetizá-la em laboratório. Hofmann foi conhecer pessoalmente Maria Sabina e levou algumas cápsulas de psilocibina pura e depois de tomá-las durante uma cerimônia de cogumelos, confirmou que “continham o espírito do cogumelo”.
Paralelamente a isso, Wasson publicou um artigo sobre sua experiência na revista Life, que alcançava um grande público e era tida como formadora de opiniões. Naquele período, o tema ainda era pouco conhecido por grande parte da população, por isso, a reportagem tornou o casal famosos não só nos EUA, mas em todo o mundo, influenciando diretamente pela contra cultura hippie dos anos 60.
Ficou proibido nos EUA em 1971, após discurso do então presidente Richard Nixon e com sua política de guerra às drogas. Seguindo a agenda política estadunidense, boa parte dos outros países também proibiram na década de 70 com o respaldo do Tratado de Viena sobre substâncias psicoativas, o qual a psilocibina foi classificada dentro da lista I como substância sem nenhum valor científico ou terapêutico.
Atualmente o uso de psicodélicos voltou ao hype como parte da cultura da tecnologia e da obsessão pelo sucesso do Vale do Silício, localidade que abriga muitas start-ups e as gigantes globais de tecnologia nos EUA. A empolgação com esses psicodélicos tem menos a ver com recreação e mais com sua suposta capacidade de ajudar as pessoas a subir de nível em suas carreiras.
Apesar de ser uma alternativa promissora, a terapêutica com psicodélicos não pode ser feita por conta própria de forma aleatória. É necessário acompanhamento médico para ajudar as pessoas a integrar os medicamentos a suas vidas de uma maneira segura e significativa, superar crenças limitantes em torno do próprio valor e competência.
Referências:
- Los hongos en la cultura mexicana: bebida y alimentos tradicionales fermentados, hongos alucinógenos. - Teófilo Herrera
- Hallucinogenic, medicinal and edible mushrooms in México and Guatemala: traditions, myths and knowledge - Gastón Guzmán
- La psilocibina: perspectiva histórica y farmacológica y investigaciones actuales autorizadas. - David Serrano Hurtado.
- LEI Nº 11.343, DE 23 DE AGOSTO DE 2006
- A história do casal que difundiu a terapia psicodélica na década de 50 - Por João R. Negromonte
- Depressão, ansiedade, pânico: como está a saúde mental no Vale do Silício - por Jeff kauflin
